Tempo da Criação: entenda a proposta da Igreja
Celebrado por denominações cristãs entre 1º de setembro e 4 de outubro, o Tempo da Criação convida a ouvir o grito da Terra. Neste ano, o tema é Água Viva, inspirado em Ezequiel.
O Tempo da Criação é um período celebrado por algumas denominações cristãs para ouvir o grito da Terra e renovar o compromisso de cuidar da criação de Deus. A celebração começa em 1º de setembro, com o Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação, e segue até 4 de outubro, festa de São Francisco de Assis. Neste ano, o tema central é Água Viva, inspirado na visão do profeta Ezequiel (capítulo 47, versículos de 9 a 12), que traz uma perspectiva de esperança e cura.
A proposta, segundo o padre Ailton Martins Evangelista, assessor do Serviço de Animação Laudato si' na diocese de Lorena (SP), é antes de tudo espiritual. O cuidado com a criação, explica ele, não se resume à prática manual de limpar e retirar a poluição. A Igreja Católica entende que todo cuidado deve começar de dentro para fora, a partir do espírito e do interior de cada pessoa. Durante todo o ano os fiéis são chamados a cuidar da criação; em setembro, até a festa de São Francisco, são convidados também a rezar e a contemplar.
O que a Igreja pede neste período
Padre Ailton situa o Tempo da Criação como herança do pontificado do Papa Francisco. Segundo ele, papas anteriores, desde Leão XIII, já traziam o tema, mas foi com a encíclica Laudato si', de 2015, que a Igreja dedicou uma carta extensa ao cuidado da casa comum. Dessa carta surgiram desdobramentos, entre eles o Movimento Laudato si', de alcance global, que dialoga com outras religiões e reúne materiais de apoio.
O período não é exclusivo dos católicos. Conforme o sacerdote, inúmeras denominações também se unem em torno do cuidado com a criação como bem comum. A oração, nesse sentido, aparece como pedido de inspiração e de toque no coração das pessoas.
São Francisco e a mensagem que atravessa 800 anos
O encerramento, em 4 de outubro, remete a São Francisco de Assis, autor do Cântico das Criaturas. Padre Ailton lembra que os santos funcionam como modelos que instruem a caminhada, e São Francisco extrapola os limites do catolicismo: é estudado fora da Igreja, é patrono da natureza e dos biólogos, e serve de referência para quem trabalha diretamente com o meio ambiente.
Passados 800 anos da morte do santo, o Cântico das Criaturas continua, na avaliação do assessor, a ensinar que tudo está interligado e que o ser humano faz parte de algo maior. A mensagem central é a de que ninguém está fora: todos compõem um todo.
Pastoral da Ecologia e Serviço de Animação Laudato si'
As duas formas de organização se difundiram na Igreja principalmente após 2015. Padre Ailton distingue os campos: há temas centrais da fé, como música sacra, sacramentos e catequese, e há temas de fronteira, que permitem diálogo com ONGs, poder público e outras religiões. A ecologia integral é um tema de fronteira.
No caso da Pastoral da Ecologia, o termo pastoral carrega sentido mais eclesial, de ação de cuidado dentro da Igreja. Já o Serviço de Animação Laudato si' se organiza a partir da encíclica. Em ambos os caminhos, segundo o assessor, o ponto de partida é a sensibilização interna, que a Igreja busca alcançar pelo espírito e pelas emoções.
encíclica Laudato si'
exortação apostólica Laudate Deum