Igreja reitera diálogo e convivência pacífica entre religiões
Em nota pelos 60 anos da Nostra aetate, Dicastérios reiteram o diálogo inter-religioso como caminho de esperança e condenam toda perseguição motivada por religião.
Os Dicastérios para a Doutrina da Fé, para a Promoção da Unidade dos Cristãos e para o Diálogo Inter-religioso publicaram nesta quarta-feira, 16, uma nota por ocasião dos 60 anos da declaração conciliar Nostra aetate. Intitulado "Um caminho de esperança", o documento retoma as etapas essenciais do diálogo desde a publicação da declaração, considerada um marco à época e um farol de esperança no período pós-guerra.
A nota reitera a reprovação da Igreja a toda e qualquer discriminação ou violência praticada por motivos de raça ou cor, condição ou religião. O texto reflete sobre a vivência concreta do chamado à fraternidade universal em sociedades marcadas por crescente diversidade cultural e religiosa, guerras, violência e tendência à secularização. Nesse contexto, percorre novamente o caminho trilhado desde a gênese da Nostra aetate, considerada uma resposta às consequências do antissemitismo que culminaram no Holocausto.
"Toda perseguição motivada por religião é sempre uma violação da dignidade humana. É urgente encontrar uma resposta comum que, no espírito da Nostra aetate, promova o respeito, o diálogo e a convivência pacífica entre todos", salienta a nota.
O trabalho conjunto entre cristãos e judeus, destaca o texto, produziu frutos visíveis no diálogo com outras religiões, como o islamismo, hinduísmo, budismo, tradicionais religiões africanas e diversas crenças. "Foram estabelecidas amizades duradouras entre líderes religiosos, foram lançados projetos educacionais e sociais conjuntos e declarações conjuntas foram publicadas diante de tragédias humanitárias, guerras ou crises ambientais", registra.
A nota cita o diálogo teológico entre especialistas e o diálogo monástico inter-religioso, mas também a experiência vivida, silenciosa e discretamente, por sacerdotes, religiosos e leigos em bairros multirreligiosos, encarnando a intuição da Nostra aetate de "viver no mundo como testemunhas do amor de Deus, em diálogo com todos".
O texto não poupa críticas às manifestações de islamofobia que não distinguem os casos de fundamentalismo e violência da convivência pacífica de outros muçulmanos que se integram e trabalham nos países que os acolhem. "Devemos agradecer às comunidades cristãs que cresceram num espírito de acolhimento e também numa maior compreensão e respeito pelos muçulmanos", lê-se.
Ao percorrer o magistério dos Papas, de São Paulo VI a Leão XIV, a nota indica o acolhimento (ou a rejeição) aos pobres como critério de discernimento universal. "A atenção concreta aos mais vulneráveis é o indicador essencial para avaliar a correção de todo projeto, seja ele político, econômico, social, acadêmico, religioso ou cultural", ressalta.
O texto observa que as "dificuldades do diálogo" são destacadas especialmente por quem teme o "relativismo doutrinário ou uma diluição da identidade religiosa", relações "historicamente conflituosas" ou a memória de "feridas antigas" que dificultam a confiança recíproca. Outros desafios citados são o crescimento do fundamentalismo, a persistência de preconceitos, a manipulação política das afiliações religiosas e a violência em nome de Deus.
O caminho, reconhece a nota, segue desafiador, exigindo humildade, coragem e discernimento. O diálogo não é uma "estratégia" nem uma renúncia à própria identidade, mas sim um "autêntico caminho evangélico", que pressupõe clara consciência da própria identidade religiosa e cultural, junto com abertura real ao outro.
Respeito e estima são fundamentos imprescindíveis para superar atitudes de exclusão, desprezo ou indiferença que há muito prevalecem, frisa o texto. "Não podemos invocar Deus como Pai de toda a humanidade se nos recusamos a nos comportar como irmãos daqueles criados à imagem de Deus", salienta.
Diante daqueles que "fomentam divisões e preparam conflitos", os fiéis de diferentes tradições são chamados a "buscar, com clareza e esperança, as condições para a convivência pacífica". Para alcançar esse objetivo, deve-se "abandonar as lógicas de defesa, hostilidade ou conquista e adotar uma atitude aberta, benevolente e corajosa".