Bem-estar

Santa Sé: não à 'lógica do medo' imposta pela retórica nuclear

ResumoA Santa Sé condenou, na ONU em 1º de setembro, a "lógica do medo" promovida pela retórica nuclear agressiva. A declaração pede ação imediata para alcançar um mundo livre de armas nucleares. A posição vaticana rejeita a intimidação como ferramenta política e reforça o desarmamento como prioridade ética e diplomática global.

A Santa Sé, em declarações na ONU na terça-feira, 1º de setembro, condenou a 'lógica do medo' alimentada pela retórica nuclear agressiva e pediu ação imediata por um mundo livre de armas nucleares.

Pe. Anselmo Ribas
por Pe. Anselmo Ribas · Sacerdote e colunista · 02 de setembro de 2026 · 3 min
Santa Sé: não à 'lógica do medo' imposta pela retórica nuclear

A Santa Sé, por meio da Missão de Observação Permanente junto à Organização das Nações Unidas (ONU), condenou a "lógica do medo" alimentada pela retórica nuclear cada vez mais agressiva. Em duas declarações proferidas na terça-feira, 1º de setembro, pelo monsenhor Robert Murphy, conselheiro da Missão, a Santa Sé pediu ação imediata e eficaz diante do que classificou como um "retorno à dissuasão nuclear". As ocasiões foram a reunião plenária de alto nível do Dia Internacional contra os Testes Nucleares (IDANT) e o encontro internacional sobre assistência às vítimas e remediação ambiental.

O diagnóstico é claro: palavras e ações agressivas alimentam uma cultura do medo, enquanto doutrinas e arsenais desfiguram os rostos daqueles submetidos a uma "cultura do poder", com sua dignidade "vendida" em busca de interesses militares e políticos. Murphy recordou o "legado devastador" dos testes nucleares, celebrados em 29 de agosto, e alertou que a paz "não pode ser preservada pelo desenvolvimento de armas cada vez mais destruidoras". Ele citou a encíclica Magnifica humanitas, do Papa Leão XIV, que vê no abandono progressivo de ogivas nucleares o "reconhecimento da ameaça representada por armas capazes de destruir a humanidade inteira".

Para quem acompanha os passos da Igreja no cenário internacional, o tom cauteloso não esconde a gravidade: a Santa Sé renovou o apelo pela implementação do Tratado de Proibição Completa de Testes Nucleares (CTBT) e expressou apreço pelo trabalho da Comissão Preparatória da Organização do Tratado (CTBTO). O compromisso demonstra como "a ciência, a tecnologia e a cooperação internacional podem ser colocadas a serviço da transparência, da construção da confiança e do bem comum". Reafirmou ainda o "apoio inabalável" ao Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares e ao Tratado sobre a Proibição de Armas Nucleares, na esperança de "um mundo livre de armas nucleares e, em última instância, pelo estabelecimento de uma paz justa e duradoura".

Murphy também destacou que a "cultura do poder" cresce "normalizando a guerra, buscando um poder militar cada vez maior, aproveitando da crise do multilateralismo e alimentando um falso realismo que insiste que não há alternativas". No campo nuclear, isso se traduz na modernização e expansão dos arsenais, com integração de tecnologias em rápida evolução. As consequências lembram que "por trás de doutrinas, arsenais e considerações de vantagem estratégica, existem pessoas cuja dignidade intrínseca, dada por Deus, jamais poderá ser subordinada a interesses militares ou políticos".

O apelo final é direto: aplicar a "perspectiva das vítimas" defendida por Leão XIV, oferecendo apoio médico e psicológico às pessoas afetadas pela radiação, com atenção especial às comunidades que suportaram fardos desproporcionais, incluindo os povos indígenas. O cuidado do ambiente não pode ser dissociado: a contaminação do solo, da água e dos ecossistemas impacta a saúde e os meios de subsistência atuais, impondo encargos às gerações futuras. Como concluiu Murphy, "as pessoas afetadas por armas nucleares nos pedem não apenas para enfrentar as consequências dos danos sofridos no passado, mas também para deixar que seus testemunhos orientem nossas escolhas para o futuro". A paz começa por dentro, mas exige gestos concretos de quem decide os rumos do mundo. Papa Leão XIV e a encíclica Magnifica humanitas Tratado sobre a Proibição de Armas Nucleares

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