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Sacerdote analisa encíclica de Leão XIV e defende limites éticos para a IA

ResumoPadre Renan Dantas, da Diocese de Juína (MT), analisa o capítulo III da encíclica Magnifica humanitas, do Papa Leão XIV. O sacerdote defende limites éticos para a inteligência artificial, afirmando que a tecnologia deve servir ao florescimento humano, e não à substituição do homem. A análise integra série sobre o documento papal.

Na terceira reportagem da série sobre a Magnifica humanitas, o padre Renan Dantas, da Diocese de Juína (MT), analisa o capítulo III da primeira encíclica do Papa Leão XIV. O sacerdote defende que a tecnologia deve servir ao florescimento humano, e não à sua substituição, e aponta

Marta Vasques
por Marta Vasques · Teóloga · 22 de julho de 2026 · 7 min
Sacerdote analisa encíclica de Leão XIV e defende limites éticos para a IA

Sacerdote analisa encíclica de Leão XIV e defende limites éticos para a IA

O Papa Leão XIV, em sua primeira encíclica, Magnifica humanitas, publicada em maio, aborda o papel da Doutrina Social da Igreja diante do avanço acelerado da inteligência artificial. O Pontífice enfatiza que a tecnologia deve servir à humanidade, sem jamais submeter o ser humano às lógicas de poder do mercado. Nesta terceira reportagem da série sobre o documento, o padre Renan Dantas, da Diocese de Juína (MT), analisa o terceiro capítulo e defende limites éticos claros para a IA: a tecnologia deve servir ao florescimento humano, e não à sua substituição.

O que é a "síndrome de Babel" segundo o Papa Leão XIV?

O padre Renan Dantas, pós-graduado em Teologia Social e Jornalismo Digital e graduando em Inteligência Artificial pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR), afirma que o Papa é muito feliz no Capítulo III da Magnifica humanitas ao alertar sobre a "síndrome de Babel". "Esse desejo de traduzir absolutamente tudo em dados, desempenho e métricas de eficiência acaba por sufocar o mistério que existe dentro de cada pessoa. Nós não somos uma equação matemática a ser resolvida", observa o sacerdote.

Como a Igreja vê a diferença entre mente humana e IA?

O padre cita também o documento Antiqua et Nova, publicado pelo Dicastério para a Doutrina da Fé e pelo Dicastério para a Cultura e a Educação em janeiro de 2025, que trata da relação entre a inteligência artificial e a mente humana. "Ele nos dá um chão antropológico muito seguro ao lembrar que a máquina pode processar informações em velocidade assombrosa, mas é incapaz de viver uma experiência real", pondera. "O algoritmo não tem corpo, não sente dor, não se arrepende e não sabe o que é misericórdia. Como diz a Magnifica humanitas no parágrafo 99: 'Essas inteligências artificiais [...] não conhecem internamente o que significa amor, trabalho, amizade, responsabilidade'."

Por que não se pode delegar decisões humanas a algoritmos?

Deixar que sistemas automatizados decidam parâmetros de funcionamento amplo da sociedade é um ponto sensível. "Quando a gente deixa um sistema decidir quem 'merece' ou não um direito básico, nós estamos apagando a compaixão da política e das relações humanas", adverte o padre Renan. "O algoritmo calcula com base no que já aconteceu; ele é determinista. O humanismo cristão, por outro lado, acredita na liberdade, na graça e na nossa capacidade de mudar de rumo."

Segundo o sacerdote, a tecnologia precisa de um freio ético e humano. "O ser humano deve ser sempre o fim, nunca o meio ou um mero dado estatístico", afirma.

Cardeal Fernández Artime também alerta sobre os riscos

A convicção de que um algoritmo, capaz de alterar profundamente o modo de viver e trabalhar da sociedade, não pode substituir a capacidade de discernimento do indivíduo também é compartilhada pelo Cardeal Ángel Fernández Artime, pró-prefeito do Dicastério para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica. Em sua intervenção na Assembleia Mundial dos Prêmios Nobel sobre Inteligência Artificial e Guerra Nuclear, ele destacou que "o problema não é a tecnologia, mas a orientação que queremos dar a ela. Se não levarmos em conta os direitos fundamentais, corremos o risco de criar sistemas que favoreçam o controle, a manipulação e até mesmo novas formas de desigualdade".

A tecnologia precisa de um freio ético?

O padre Renan argumenta que as empresas do setor de tecnologia precisam, urgentemente, rever as diretrizes que regem as redes sociais. "Sim, as empresas precisam refundar as suas políticas, e os documentos da Igreja nos dão o mapa para essa reconstrução", afirma, sem rodeios. "Essa preocupação com o abismo social provocado pela tecnologia não é de hoje. Ela herda o espírito de luta contra a desigualdade da histórica encíclica Rerum Novarum, escrita pelo Papa Leão XIII."

Para a Igreja, a última palavra em processos deliberativos sempre deve ser de uma pessoa, única capaz de discernir cenários levando em consideração a misericórdia e a compaixão. "O humanismo cristão defende a liberdade e a redenção. Por isso, decisões delicadas sobre crédito, saúde e emprego jamais podem ser 100% automatizadas", reforça o sacerdote.

O que é a "arquitetura da visibilidade" denunciada pelo Papa?

É preciso, por exemplo, mudar o que o Papa classifica na encíclica como "arquitetura da visibilidade". "Hoje, os algoritmos das Big Techs são desenhados sob a economia da atenção, eles entregam o que gera mais engajamento, que quase sempre é o ódio, a mentira e a polarização. O Papa expressou forte preocupação com o impacto disso nas relações humanas, na informação e na educação, denunciando esse poder invisível de moldar o imaginário coletivo. As empresas precisam ser responsabilizadas publicamente por essa curadoria."

Qual é o limite ético intransponível para a IA?

A encíclica também aborda um tema caro à sociedade moderna: os limites da delegação de decisões humanas a sistemas automatizados. "Se pararmos para observar a rotina de uma sala de aula, o convívio nas nossas casas ou a vida comunitária em nossas paróquias, a fronteira fica muito evidente: a máquina é excelente para calcular, mas absolutamente incapaz de perdoar. Para a moral católica, esse é o limite", pondera o padre Renan.

É muito claro para a fé católica que a barreira intransponível para a inteligência artificial é a misericórdia. O parágrafo 102 da Magnifica humanitas pondera que sistemas automatizados não têm história e desconhecem a compaixão e o perdão. "Quando a sociedade delega decisões de vida, como o acesso a um tratamento médico, a um emprego ou a um crédito a um algoritmo, comete o que o Papa chama de covardia ética. Tenta-se camuflar a injustiça sob uma falsa 'neutralidade técnica'", acrescenta.

Como educar os jovens para o uso consciente da IA?

Em um dos momentos do terceiro capítulo da encíclica, o Santo Padre propõe uma "aliança educativa" para que famílias e escolas ensinem os jovens a não se apoiarem única e exclusivamente no uso de inteligências artificiais nos estudos. Segundo o padre Renan, são propostas duas atitudes práticas: a pedagogia do jejum de IA e a valorização do que as máquinas não podem oferecer.

"É preciso educar os jovens sobre quando e onde não usar a tecnologia, como é dito no Parágrafo 140. Se a maioria usa a IA para estudar, precisamos ensiná-los a não terceirizar a própria capacidade de pensar e a combater a hiperestimulação que gera tédio e apatia", explica.

Para oferecer o que as tecnologias não conseguem suprir, o caminho seria propor o oposto do imediatismo digital. "A família, a escola e a Igreja não devem tentar competir com a velocidade do mundo tecnológico", adverte o padre. "Nosso papel é garantir exatamente o contrário: tempo partilhado de silêncio, estudo profundo e relações reais baseadas no olho no olho, no diálogo e na confiança."

O futuro da convivência humana com a IA

O futuro da convivência humana com a inteligência artificial ainda se mostra incerto, mas repensar o uso responsável dessas ferramentas é urgente. "No fim das contas, a tecnologia serve para aliviar as tarefas, mas o encontro humano real é insubstituível. O farol da Igreja nos lembra de proteger o que nos torna humanos: a presença física e o afeto real", finaliza o padre.

Perguntas Frequentes

O que diz a encíclica Magnifica humanitas sobre IA?

A encíclica, publicada em maio pelo Papa Leão XIV, aborda a Doutrina Social da Igreja diante do avanço da inteligência artificial. O Pontífice enfatiza que a tecnologia deve servir à humanidade, sem jamais submeter o ser humano às lógicas de poder do mercado.

Qual é o limite ético da IA segundo a Igreja Católica?

Para a fé católica, a barreira intransponível para a inteligência artificial é a misericórdia. Sistemas automatizados não têm história, não sentem dor e desconhecem a compaixão e o perdão.

O que é a "síndrome de Babel" mencionada pelo Papa?

É o alerta do Papa sobre o desejo de traduzir absolutamente tudo em dados, desempenho e métricas de eficiência, o que sufoca o mistério que existe dentro de cada pessoa.

Como educar os jovens para o uso da IA?

A encíclica propõe uma "aliança educativa" com duas atitudes práticas: a pedagogia do jejum de IA e a valorização do que as máquinas não podem oferecer, como tempo de silêncio, estudo profundo e relações reais.

Quem é o padre Renan Dantas?

É sacerdote da Diocese de Juína (MT), na região da Amazônia Legal. Pós-graduado em Teologia Social e Jornalismo Digital, também é graduando em Inteligência Artificial pela PUC-PR.

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